Fito Festival 2011

Relicário

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  • A menina que “lavava pratos” e contava estórias Autor: Jane Andrade

    Pois é! Ontem participei de um momento fantástico: a pré-estreia do Festival Internacional de teatro de Objetos em Recife. Tudo sensacional: organização, acolhimento, decoração e, para arrematar, o espetáculo Entre dilúvios, primoroso e emocionante.

    Mas o que o espaço Relicário tem a ver com minhas impressões e repercussões sobre o que vivenciei?

    Primeiro, preciso contar para todos e todas que fui arrebatada por um desejo imenso de que todas as pessoas que eu gosto estivessem comigo, curtindo o espetáculo "aperitivo" e assumindo agendar participação em 90% da programação.

    Segundo, algumas imagens e sensações da minha meninice emergiram intensas, tais quais as ondas do dilúvio vivido por Noé.

    Vou começar a contar uma história afirmando que sou uma pessoa que adora (de verdade!) lavar pratos, panelas e Cia. Alguns amigos e familiares acham esse gostar esquisito, até raro. Eu descobri (insight), sem medo de errar e sem precisar de terapia, que esse meu gostar tinha a ver com boas vivências armazenadas na minha infância, relacionadas ao ato de "lavar pratos" e que têm tudo a ver com a proposta base do teatro de objetos.

    Voltando no tempo, entre meus 8 e 10 anos de idade, eu morava em Goiana, Pernambuco, em uma casa com um corredor comprido e uma cozinha ampla, com uma imensa mesa de madeira no centro.

    Minha mãe era costureira, meu pai passava o dia trabalhando e minha irmã era bem "novinha". Então, era necessário distribuir solidariamente as tarefas domésticas e eu fui designada para lavar os pratos usados no almoço de todos os dias. Castigo?  Definitivamente não. Desde sempre entendi que a minha mãe, super amorosa, me dava a oportunidade de compartilhar responsabilidades.

    Mas, vamos combinar que, apesar da minha compreensão da necessidade, o exercício poderia ter sido cansativo e maçante para uma criança. Pois não é que eu coloquei a situação a meu favor e, intuitivamente, incorporei a filosofia do teatro de objetos?!

    Como?! As minhas tardes eu passava literalmente "lavando pratos", desde um pouco depois do meio dia até o "sol se por".

    A mesa, onde era colocada uma bacia d'agua (nada de balcão, pia, torneira) passou a ser o tablado, onde cada objeto (xícara, colher, prato, panela) ganhava uma identidade e era personagem das muitas estórias que eu inventava: fadas, princesas e bruxas emergiam de clássicos recontados e de histórias de amor. O médico da cidade, as amigas e suas mães, os professores, cantores e atores, as mocinhas bondosas e as amigas dissimuladas não podiam faltar. Meu script era invejável e eu me sentia poderosa dando vida para tantos amigos, muito bem lavados e tratados com tanto cuidado que eu não me lembro de ter quebrado algum, mesmo com minhas mãos pequeninas.

    Ah! Mas não era só contar as estórias, muitas vezes com minha irmãzinha como ouvinte ou na solidão que o longo corredor impunha, já que minha mãe estava pedalando a máquina, bem distante, na sala de visitas. Sabiam que colher beijava faca? Que a panela preta e envelhecida namorava uma delicada xícara de chá branca? Que naquele ambiente não havia espaço para o preconceito? Lógico que na batalha do bem contra o mal, nos encontros ou desencontros entre ricos e pobres, as diferenças sempre podiam ser ressaltadas, mas acabavam sendo superadas, e, geralmente, entre beijos.

    Puxa vida! Que lindo o prazer de brincar, os estímulos positivos, a criatividade solta, a imaginação fértil, a responsabilidade, a solidariedade em família. Puxando as lembranças da minha "cachola", constato que a minha imaginação não tinha limites e a curtição era garantida.

    Era ou não era o exercício da concepção artística do teatro de objetos? O meu prazer em lavar pratos esta explicado com argumentos convincentes ou não?

    O mais especial é que eu me sinto contando um pedacinho da história de muitas outras crianças por esse mundo de Deus!

    Entrou pela perna de pinto, saiu pela perna do pato e quem quiser que conte outro fato!

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Campo Grande/MS

de 02 a 04/12

no Centro de Convenções Albano Franco
a partir das 16h00

Depois de surpreender Campo Grande no ano passado, o FITO volta com nova programação

Companhias de 7 países, performances, exposição fotográfica, apresentação especial com Otto e Naná Vasconcelos.