Fito Festival 2011

Relicário

voltar para listagem de relicário
  • Obsessão Autor: Patrícia Cunegundes

    - Estou indo embora, acabou.
    Ela não respondeu porque sequer o ouvira. Passou por ele no corredor, como se fosse um fantasma. Pegou uma garrafa de vinho branco e uma taça, e subiu em direção ao sótão. Havia chegado finalmente a hora de enfrentar o passado. Enquanto subia as escadas lentamente, apoiando-se no corrimão desgastado, o marido dava a partida no carro. Não se importava mais. Depois do sótão, ela também deixaria a casa.
    Antes de abrir a porta, fechada há tantos anos, respirou fundo. Fechou os olhos, sentiu toda a felicidade dos primeiros anos do casamento voltar, o pólen voando pelos ares naquela primavera parisiense, o carinho da lua-de-mel, a esperança de uma vida feliz. Tudo voltara.
    Abriu a porta, o ar abafado que bateu no seu rosto a fez acordar. Olhou ao redor: o sótão estava exatamente como ele havia deixado. Apesar de sua morte, apesar do novo casamento, ela nunca mais teve coragem de visitar aquele espaço.
    - O sótão estava exatamente como ele deixara, pensou novamente.
    Foi entrando devagar. Sentiu a energia do lugar. Era a energia dele. Não pensava mais no homem que acabava de bater a porta da sua casa. Pensava nele, no homem daquele sótão, na lua-de-mel em Paris, na felicidade dos primeiros anos de casamento. - Quando começamos a ser infelizes?
    E ele estava ao seu lado, quase suplicando para que ela o percebesse; para que ela adivinhasse que eles precisavam terminar o quebra-cabeça. Era sua obsessão. Em alguns momentos, chegou a pensar que o jogo, comprado durante a lua-de-mel, fora o responsável pelo fracasso do casamento.
    Ela observava e tateava suavemente os livros, a máquina de escrever e as roupas dele. O quebra-cabeça estava perdido, montado pela metade, com algumas peças no chão, num canto qualquer do sótão. Ela parou o olhar. Havia apagado da memória aquele jogo complicado, mas bobo, que ele tanto insistiu em comprar em Paris. Lembrou, também, do quanto se divertiram na loja, das mímicas que ele fazia para a vendedora.
    Ele ficou aliviado de vê-la caminhando na direção do quebra-cabeça. - Vamos, me ajude a terminar de montá-lo. Precisamos fazer isso.
    Ela sentou no chão, abriu a garrafa de vinho e respirou fundo novamente. - É melhor começar a desmontar esse jogo, guardar as roupas e os livros. Vou me livrar de tudo, preciso seguir em frente. Mas, concentrou-se no quebra-cabeça e subitamente lembrou de quando começaram a ser infelizes. Por mais que se alternassem as peças, a torre não se completava.
    - Não, você não pode desmontá-lo, vamos montar juntos. São as peças da nossa vida, precisamos refazer nossa vida.
    Ela nunca teve vontade de sair de São Paulo. Mudar de estado foi desgastante, teve que montar um escritório em casa e ficar fora pelo menos uma semana por mês para atender seus clientes. No entanto, ele insistiu na mudança, havia encontrado o lugar perfeito par criarem os filhos que jamais tiveram.
    A garrafa de vinho já havia acabado quando ela percebeu que estava sentada há quase uma hora no chão empoeirado do sótão. Dois anos depois estarem vivendo no Rio de Janeiro, o casamento começou a ruir. Ele queria que ela largasse os clientes de São Paulo e parasse de viajar para se concentrar na família. Ela queria esperar mais um pouco. Começaram então as brigas por causa das viagens. E o ciúme doentio daquele homem, que se refugiava cada vez mais no sótão, tentando montar o maldito quebra-cabeça com a peça defeituosa, apenas aumentava. Ele jamais se convencera que de que havia algo errado com o jogo. Continuava tentando completá-lo, apesar do defeito evidente. - Nós teríamos sido tão felizes, poderia ter dado certo, se você não tivesse sido tão egoísta.
    Ela sentiu novamente a energia dele. O vinho acabou, pensou em descer para pegar outra garrafa, mas desistiu. Se descesse, não voltaria mais. Fora fiel a ele quase todo o tempo. Um deslize apenas, uma tarde em um hote; tudo rápido. A gravidez imprevista, a briga, o empurrão, o aborto. A vida nunca mais foi a mesma. Era uma questão de tempo para o casamento acabar. Agora, restavam apenas algumas peças do quebra-cabeça no chão. Completaria a caixa com alguns livros e trancaria o sótão para sempre.
    Ele já não tinha mais o que fazer ali. O quebra-cabeça estava sendo jogado fora, não seria mais possível reconstruir a vida perdida naquele domingo em que a empurrou, tomado de ciúme, ódio e ressentimento. Não viveu tempo suficiente para consertar seus erros.
    Depois de recolher todas as peças do jogo, os livros e as roupas, a mulher desceu as escadas. Não olhou para trás. Não trancou a porta. Deixou a caixa no corredor e foi embora. Hesitou antes de fechar definitivamente a porta da casa onde fora tão infeliz. Voltou a recolher as peças. Agora, a única coisa que desejava era sair dali, queria um lugar onde se sentisse acolhida.
    Havia comprado um apartamento para quando decidisse deixar a casa. Pegou o carro, dirigiu até São Paulo, mas não foi para o apartamento. Olhou a caixa com o quebra-cabeça defeituoso e foi para o aeroporto. Pegou o primeiro voo para Paris. Precisava desvendar o jogo: havia realmente uma peça defeituosa ou eles não foram capazes de montá-lo juntos? Precisava montar aquele quebra-cabeça.

Compartilhe

Campo Grande/MS

de 02 a 04/12

no Centro de Convenções Albano Franco
a partir das 16h00

Depois de surpreender Campo Grande no ano passado, o FITO volta com nova programação

Companhias de 7 países, performances, exposição fotográfica, apresentação especial com Otto e Naná Vasconcelos.