DIARIO DE PERNAMBUCO
CADERNO OPINIÃO
Lina Rosa Vieira
Toda criança do planeta inventa novos significados para os objetos. A menina do sertão transforma ossos de bode em família. O menino do Japão transforma mouses em carrinhos de corrida. O ato é natural. A brincadeira é espontânea. Mas o tempo passa. E o cotidiano contemporâneo distancia a mente adulta de sua vocação: olhar para as coisas de um jeito diferente. Hoje, por exemplo, vejo saca-rolhas de aço rodarem tão leves quanto bailarinas de tule cor-de-rosa. Sim. Vejo bailarinas em saca-rolhas brancos. Uma espécie mutante do Lago dos Cisnes. Saca-rolhas que não abrem somente garrafas. Saca-rolhas que abrem sorrisos. Lembro os objetos inventados pelo escritor Manoel de Barros quando ele era pequeno. Abridor de amanhecer. Encolhedor de rios. Esticador de horizonte.
Há pouco mais de 30 anos, algumas companhias da França tiveram a ousadia de criar, montar e encenar espetáculos apenas com objetos. Thêatre de Cuisine, Gare Centrale, Gyulio Molnar, Théâtre Manarf, Vêlo Théâtre, Théâtre delle Bricciole. As experiências não alteravam a característica original dos objetos. A inspiração para a construção dos personagens vinha da sua anatomia de fábrica. No palco, as coisas ganhavam novas funções. Jogos de cena desenvolvidos a partir de metáforas, metonímias e associações de ideias. O movimento foi batizado de Teatro de Objetos e oficializado como um segmento próprio e distinto do Teatro de Bonecos. A compreensão da identidade do personagem acontece sem adereços. Pela própria aparência do objeto, que simbolicamente remete a ele. Pelo movimento da coisa em cena. Pela interpretação de suas falas. As identificações e projeções vêm do que ele representa. Coletiva e pessoalmente. Assim, o Teatro de Objetos acaba sendo um baú de memórias. Ou, se preferir, um relicário de lembranças.
Objetos recodificados numa revolução gramatical e semântica. Objetos transformados em sujeitos. Simples, compostos, indefinidos, indeterminados. Sujeitos-objeto que conjugam verbos. Criticar, contestar, desconcertar. Envolver, encantar, recriar. Uma história de Chapeuzinho Vermelho contada por sapatos. O Lobo Mau é uma bota de militar. A menina, um sapatinho vermelho de verniz. E a Vovozinha, um chinelo antigo. Um conto de Cinderela encenado por ferramentas. A Gata Borralheira feita de parafuso. O sapatinho de cristal, uma porca polida. E o príncipe encontra a princesa quando encaixa a porca no parafuso. O Avarento, de Molière, interpretado por torneiras. A água é a riqueza. A escassez move o conflito. A Primeira Guerra Mundial contada por palitos de fósforo. Minúsculas chamas com proporções atômicas. Recorro de novo a Manoel de Barros sobre a importância do ínfimo.
Objetos do cotidiano ou objetos de arte? O que pode estar escondido no fundo do armário? Copos, pratos ou a própria infância? É possível voar nas asas das xícaras? O que pode estar esquecido na caixa de ferramentas? Martelos, pregos ou a cumplicidade da brincadeira de pai e filho? É possível atravessar a fenda da chave de fenda? O Teatro de Objetos defende que sim.
Lina Rosa Vieira
Idealizadora e curadora do Fito-Festival Internacional de Teatro de Objetos
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